Parte 2 – Por que os preços sobem?
No artigo anterior vimos que a inflação é medida a partir de uma lista de preços, comparada entre dois períodos. Vimos também que empresas, famílias e governo sofrem com ela. Mas nos perguntamos agora: por que os preços sobem (supermercado, serviços etc)?
Já vimos também, quando falamos do PIB, que o crescimento econômico tende a ser impulsionado pelo consumo, já que este representa, no Brasil, 60%. Na ocasião dissemos que uma elevação excessiva no consumo ajuda no crescimento, mas pode trazer inflação, pela pouca disponibilidade de produtos no curto prazo. Já que nos perguntamos por que os preços sobem, comecemos então por essa primeira causa, o consumo:
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Inflação de consumo (ou demanda)
Quando os preços sobem em função de um consumo exagerado, além da capacidade das empresas ofertarem novos produtos, a chamamos de inflação de consumo, como já vimos. O consumo pode crescer por duas formas: elevação nos salários e crédito barato. Trataremos disso mais à frente em outra lição.
Na lição nº2 comentamos sobre o alto consumo dos americanos (70% do PIB). Dissemos lá que a alternativa deles para evitar a falta de produtos internamente é trazer produtos de outros países. Por isso os americanos são os maiores importadores (consmidores) mundiais. Os déficits na balança comercial americana são a alternativa para evitar inflação de consumo. E graças a isso a economia mundial é aquecida, vendendo (exportando), pra eles.
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Inflação por choque de oferta
Muitas vezes a falta de produtos não ocorre porque as famílias compram exageradamente, mas porque as empresas, involuntariamente ou não, tem problemas com a produção, gerando um choque (queda) na oferta de bens que seriam levados ao mercado. E já sabemos que pouca oferta significa elevação nos preços.
Notem que tanto na inflação por consumo quanto na inflação por choque de oferta temos a mesma situação, falta de produtos e elevação nos preços. Todavia, no primeiro caso a falta é ocasionada pelo consumo excessivo das famílias, no segundo é um problema oriundo da própria produção. São várias as causas possíveis para o choque de oferta:
A sazonalidade provoca escassez ou excesso de produtos em alguns momentos. O leite, por exemplo, tem produção menor no inverno, quando os preços, naturalmente, se elevam. Já no verão a produção sobe e os preços caem. Esses elementos sazonais, que influenciam os produtores de carne, legumes, frutas etc, são conhecidos pelo governo e já previstos nos índices de inflação, pois ocorrem, geramente, em função das mudanças nas estações do ano.
O controle voluntário da quantidade, como no caso dos países da OPEP (Organização dos Países exportadores de petróleo), mostram que é possível forçar a elevação nos preços do barril sem precisar fazer tabelamento algum. Simplesmente se reúnem e combinam a quantidade de petróleo a ser reduzida (barris) por dia. Isso provoca um choque de oferta no mercado, elevando os preços, já que o mundo não pode viver sem petróleo. Resultado: inflação, por choque de oferta.
Problemas climáticos, como chuvas fortes, geadas, ou secas prolongadas, podem provocar quedas inesperadas na produção.
Exportações, quando em excesso, também forçam os preços pra cima. Pode ser mais interessante para as grandes exportadoras, em determinados períodos, deslocar a produção interna para o exterior porque os preços estão mais atrativos. Exemplos disso são o minério (e o aço) e o açúcar.
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Inflação de lucro
Em algumas circunstâncias os preços são majorados pelas empresas apenas para elevarem suas margens de lucro. Nestes casos, se os produtos que elas vendem forem essenciais, isso acaba contaminando toda a cadeira produtiva e elevando todos os preços. Para que isso aconteça é imprescindível que o produto ou serviço vendido seja indispensável aos consumidores, empresas ou famílias. Falamos aqui dos monopólios e cartéis. Os monopólios, pela baixa concorrência, e importância dos seus produtos, elevam os preços e acabam nos forçando a pagar mais, encarecendo aquela nossa lista de produtos e serviços. A energia elétrica é um bom exemplo disso. Se a concessionária local elevar os preços não temos nada a fazer senão pagar mais caro e retirar outro produto do nosso salário (limitado), no exemplo da lição anterior excluímos o café. A outra alternativa seria substituir esse produto pelo do concorrente, mais barato. Mas no caso da energia é impossível, não há concorrentes. Poderíamos ainda eliminar esse item da lista. Como fazer isso com energia e água, por exemplo?
Podemos incluir como causadores da inflação de lucro também os cartéis, que são um conjunto de empresas, grandes ou pequenas, que vendem produtos similares mas que combinam os preços entre si. O exemplo mais clássico são os postos de combustíveis.
Quando tratamos de um conjunto de empresas, em quantidade pequena, mas grandes em tamanho, como bancos, plano denominamos oligopólios. Ou seja, poucas empresas de porte razoável, tomam conta do mercado ditando os preços que querem, afinal a oferta é relativamente limitada. Mas nem sempre elas sentam e combinam preços, o que neste caso configuraria também um cartel.
Portanto, nossos gastos são influenciados por diversos itens que são caracterizados como monopólios, cartéis, ou oligopólios, aos quais podemos dar um nome genérico de preços administrados, já que há algum controle, direto, ou indireto, do governo. São eles: energia, água, combustíveis, telefonia, planos de saúde, tarifas de ônibus urbano e intermunicipal, IPVA, IPTU, taxas de cartórios, correios, passagens aéres, jogos lotéricos, pedágios, táxi etc. Como estes preços representam entre 25% e 30% do total da nossa lista de preços dá pra imaginar como o aumento deles (inflação de lucro) pode afetar os índices de inflação ao consumidor. Os preços que não são administrados, 65% ou 70%, são chamados de preços livres, pois sua oscilação depende do mercado, da lei da oferta e demanda, e não de empresas monopolistas ou cartéis.
A inflação de lucro é tão preocupante que os governos evitam ao máximo a formação de monopólios (há leis específicas pra isso), ao mesmo tempo em que controlam os oligopólios e cartéis. A partir das privatizações em 1995, com a transferência dos serviços públicos para o setor privado, foram criadas as Agências Reguladoras, cuja função era normatizar e fiscalizar o que havia passado para as mãos da iniciativa privada. Surgiram, a partir daí: Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica); ANP (Agência Nacional de Petróleo); ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária); ANA (Agência Nacional das Águas); ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres); Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), ANS (Agência Nacional de Saúde – regula os preços dos planos de saúde); ANCINE (Agência Nacional do Cinema) etc. Se elas funcionam bem ou não é outra estória (ou história, como queiram).
Muitos devem se recordar do enorme embate judicial que tivemos em 2002 quando a multinacional suíça Nestlé adquiriu a chocolates Garoto por 240 milhões de dólares. Na época, o Cade (Conselho Administrativo de defesa econômica) barrou a compra e deu um prazo de 150 dias à Nestlé para vender a fábrica a uma empresa que não tivesse mais de 20% do mercado brasileiro de chocolates para evitar o surgimento de um monopólio na área. Segundo dados do Ministério da Fazenda na época, a Nestlé ocupava 38% do mercado nacional. Com a compra da Garoto, essa participação chegaria a 56% – a segunda marca era a Lacta, controlada pela multinacional Kraft Foods, que tinha 33%.
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Inflação de custo
Quando as indústrias ou prestadores de serviços tem seus custos elevados estes precisam ser repassados aos preços para que continuem operando. Podemos incluir como custos: matérias primas, salários, juros dos empréstimos e impostos. Qualquer um destes itens ao subir acaba prejudicando os empresários, que, por sua vez, os repassam para as famílias.
Mas o que nos preocupa enquanto inflação de custo é aquele componente, dentre os citados, que pode oscilar de forma brusca, principalmente para cima, e elevar exageradamente os custos de produção. Neste caso olhamos com cuidado para o preço das matérias primas. Como são, em grande parte importadas, qualquer alta brusca no dólar pode fazer com que seus preços subam. Assim, o preço do dólar passa a ser tão importante para a economia que o governo tem uma política específica para controlá-lo, como veremos mais pra frente, a política cambial.
Observem que o preço da energia também é um importante insumo. Caso os monopólios o elevem, acabam influenciando os custos de produção e os preços finais. E no caso da energia pagamos a conta duas vezes. Primeiro a conta residencial que chega mais cara, e segundo pela energia utilizada (embutida) na fabricação dos produtos que compramos. Todavia, apesar de elevar os custos de produção e a inflação, quando os monopólios ou cartéis elevam seus preços caracterizamos esse tipo de inflação como lucro, e não como custos. O mesmo podemos dizer da elevação nos preços por choque de oferta, o que também encarece os custos das empresas. Estamos, então, preocupados com a origem do problema, pois é lá onde o governo deve atuar. Neste caso da energia não adianta punir as empresas pela elevação nos preços, os monopólios devem ser responsabilizados.
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Inflação inercial
Inercial vem de inércia, a primeira lei de Newton. Diz ela que quando um corpo entra em movimento (inflação) é necessário que um outro movimento atue com mesma intensidade em sentido contrário para que o corpo (inflação) pare. Essa era a inflação das décadas de 1980 e 1990 – até 1994. Os preços subiam hoje porque subiram ontem. A chamavam também de inflação galopante. Mas vamos tentar explicar isso de outra forma.
Quando os preços sobem muito vimos que as famílias tem seus salários reais diminuídos. E quanto maior a inflação maior a queda no salário real. Imaginemos uma elevação nos preços por choque de oferta, por exemplo. Se esse choque for de 2,7% no mês as famílias pagariam por isso na sua lista de compras ao chegarem no supermercado. Como elas absorveram esse impacto, perderam aqueles R$27,00 da lição anterior, não tem porque a inflação continuar. Ela morre no bolso do trabalhador. No mês seguinte a inflação some, zera. Suponhamos que 3 meses depois ela volte, agora por lucro, e em 10%. Novamente uma nova queda no salário real. Estava em R$973, agora perde 10% (R$97) e fica em aproximadamente R$875 – mas as notinhas na mão no fim do mês são as mesmas 10 que somam R$1.000 (salário nominal). De novo, ao amortecermos o impacto da inflação (agora de R$97), fazemos com que ela suma, não se propague, no mês seguinte. E assim as coisas vão acontecendo, inflação em cima de inflação e queda real dos salários constante.
Como a inflação na década de 1970 e 1980 subiu demasiadamente, as famílias buscaram um forma de se protegerem dessa queda no salário real. Organizaram-se e reivindicaram reajustes automáticos em seus salários caso a inflação suba. Entravam em acordo com seus empregadores, por meio de greves, paralisações etc, garantindo em seus contratos de trabalho cláusulas de reajuste automático nos salários, a partir de certo percentual. O nome disso é indexação. Os salários estavam indexados, atrelados, amarrados, a um índice de inflação qualquer (depois veremos qual). A conclusão que tiramos disso é que ao garantir reajuste automático no seu salário o trabalhador acabava arrumando um problema para seu chefe, já que ele teria que bancar os salários maiores. Considerando uma empresa cujo insumo básico seja salários teríamos a seguinte situação:
salários maiores = custos de produção maiores = repasse destes custos aos preços = mais inflação
A figura abaixo ilustra como a inflação se propaga ao longo da cadeia produtiva.

Ou seja, o empregador pagava os salários com o reajuste da inflação, mas como isso implica custos maiores, ele os repassava novamente aos seus produtos finais, elevando os preços e com isso gerando inflação. Notem que a inflação antes morria no bolso do trabalhador, via queda no salário real. Mas agora, ao conseguir reajuste automático, indexação, ela era empurrada pra frente na forma de custos para o empregador. Assim, ela se propagava, ganhava movimento, inércia. E não parava mais, ficava sempre em 10%. Qualquer impulso adicional seria somado a esse, até que chegou a 80% ao mês (todo mês, por inércia, em função da tal indexação) e ficou insuportável. Neste ponto perdemos a noção dos preços relativos, ou seja, não sabemos mais quanto custa efetivamente um produto. Em cada loja o preço acaba sendo muito diferente da outra, e não temos como comparar, relativizar. Além disso, os trabalhadores com sindicatos mais fracos não conseguem todo o reajuste da inflação e acabam perdendo muito. Em suma, aqueles efeitos negativos da inflação (sobre familias, empresas e governo), que vimos no artigo anterior, ocorrem em maior grau, prejudicando a todos.
Esse contexto de hiperinflação (inflação elevada e fora de controle, portanto, inercial) obriga o governo a fazer uma força contrária (sobre o corpo em movimento, inflação) para tentar combatê-la. Foi assim nas diversas tentativas ao longo da década de 1980 com o Plano Cruzado. Todas fracassaram. Somente em 1994, com o Plano Real, ocorreu a desindexação da economia, e a inflação inercial foi finalmente combatida. Mas isso é assunto pra uma outra lição, bem mais à frente.
Um última observação importante: a partir do que vimos acima é bastante injusto culparmos sempre os empresários pelas elevações nos preços, e a inflação. Suas margens de lucro estão sempre sendo pressionadas por elevações nos custos, que podem vir do aumento no dólar, impostos, juros, choques de oferta etc. Apenas no caso da inflação de lucro podemos classificar, sem chance de errar, tais empresários como desonestos ou injustos, por elevarem, desnecessariamente, seus preços e, com isso, a inflação.