Parte 3 – Os índices de inflação e sua importância
Já descobrimos que a inflação é medida a partir da comparação de uma lista de preços ao longo dos meses (lição nº3). Vimos também que os preços desta lista podem subir porque houve excesso de consumo, choque de oferta, elevação nos lucros dos monopólios, crescimento nos custos das empresas, ou simplesmente porque já tinham subido no mês anterior, e chamamos essa última de inflação inercial (lição n°4).
Quem mede, e onde é medida a inflação? O que significam as siglas e pra que servem? Esse é o assunto desta postagem.
A lista de bens utilizadas para acompanhar a evolução de preços é utilizada em vários pontos ao longo da cadeia produtiva. Uma primeira medição, lista, é feita no começo da cadeia, na relação entre atacadistas/indústria e varejistas, portanto, antes dos produtos chegarem até a gente. Esse índice, lista de preços, recebe o nome de IPA (índice de preços no atacado).
Quando a lista de preços é medida entre o varejo e as famílias (nossa lista do supermercado mais água, luz etc) temos um outro índice, o IPC (Índice de preços ao consumidor), como mostra a figura. É onde surgem, geralmente, a maior quantidade dos índices, calculados por institutos, governo, sindicatos e faculdades – nomearemos cada um deles a seguir.

A primeira conclusão que tiramos é que qualquer elevação nos custos dos atacadistas/indústrias serão repassados aos varejistas, ocasionando alta no IPA. Também, por obviedade, os varejistas, ao comprarem mais caro dos atacadistas, repassarão esse aumento aos seus clientes, as famílias, elevando os IPC’s.
Mas não podemos restringir as elevações nos IPC’s a repasses dos custos dos varejistas. Já identificamos (lição 4) que nossa lista de preços (IPC) pode subir por 5 motivos (ver figura abaixo): (i) pelo consumo, exagerado, das famílias, pois implicaria falta de produtos; (2) pelo choque de oferta, que ocasiona menor quantidade de produtos disponíveis; (3) pelas elevações nos custos das empresas. E estamos falando de elevações, principalmente, nos custos da indústria. Esses custos maiores são repassados ao varejo, elevando o IPA – e lembremos que muitos dos produtos listados no IPA sofrem forte influência do dólar; (4) pelo aumento nos lucros dos monopólios ou cartéis (os preços administrados, como já comentamos). Concluimos que um aumento na energia, por exemplo, afeta o IPC primeiro porque nós pagamos conta de energia residencial, e num segundo momento porque as empresas também utilizam a energia como insumo básico, e repassarão esse aumento de custos para os produtos que compramos. Pagamos duas vezes; (5) pela inércia, que contamina todos os estágios da produção até chegar no consumidor final.

Vale lembrar ainda que nossa lista de preços (IPC) é composta não só dos produtos que compramos dos varejistas, mas de outras coisas como água, energia, telefone etc etc. Podemos agora enumerar os diversos índices utilizados no Brasil e identificar a importância de cada um deles.
> IPC’s: listas de preços monitoradas entre os varejistas e as famílias. Essas listas são divididas em vários subgrupos, como: alimentação, habitação, vestuário, transportes, saúde e cuidados pessoais, educação, comunicação etc.
IPC-A (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) – lista de preços calculada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e medida entre o varejo e o consumo das famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos. É a meta oficial de inflação utilizada pelo governo. Pode ser utilizado para pleitear reajustes salariais.
INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) – calculado também pelo IBGE, mas com famílias com renda de 1 a 6 salários, contemplando, portanto, famílias com menor poder aquisitivo. É, por isso, o mais utilizado para reajuste de salários (para os mais curiosos, veja aqui a explicação detalhada de como se calcula um índice).
IPC-Fipe (Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, da USP) – preços coletados no município de São Paulo, refletindo o custo de vida para famílias com renda de 1 a 20 salários mínimos. É um índice muito importante por representar o estado com o maior PIB. Assim, se a inflação sobe em São Paulo é bem provável que suba nos índices calculados para todo o país. É utilizado para reajustes salariais em São Paulo.
ICV-Dieese (Índice do Custo de Vida do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Assim como o IPC-Fipe, é medido apenas na cidade de São Paulo considerando famílias com renda média de R$ 2.800. Também utilizado para reajustes salariais.
IPC-3i (Índice de preços ao consumidor da 3ª idade). É um índice mensurado pela FGV para indivíduos acima de 60 anos. Os subgrupos alimentação, transporte, despesas pessoais etc são os mesmos. A diferença está no peso dados a alguns deles. Dá pra imaginar, por exemplo, o impacto na renda da 3ª idade quando há elevação nos remédios, planos de saúde etc. Segundo o economista da FGV coordenador do índice: “O IPC-3i revela que os gastos com a educação é pequeno, apesar de haver mais tempo livre para se dedicar aos estudos. Por outro lado, as despesas com alimentação são maiores, sobretudo, com laticínios que ajudam a prevenir a osteoporose. As despesas com transportes públicos, como o uso de ônibus urbano, também é menor, com o passe livre. Entretanto, o consumo de água e luz aumentam, uma vez que os idosos passam mais tempo em suas residências, logo, os reajustes desses serviços trazem um impacto maior no orçamento dos idosos”.
> IPA (Índice de preços no atacado) – lista de preços utilizada na negociação (compra e venda) entre atacadistas e varejistas – calculada pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). É o primeiro índice a captar as variações do dólar, pois atacadistas e indústria são grandes importadores.
> INCC (Índice Nacional de Custo da Construção) – é similar ao CUB (Custo Unitário Básico), sendo o primeiro um índice nacional e o segundo local. Ambos são uma lista que mede a inflação especificamente no setor da construção civil, compreendendo: preço da mão de obra, cimento, areia, brita, vergalhões, cerâmicas, pintura, material elétrico, acabamento etc. A lista mostra a evolução dos custos de construções habitacionais, ou seja, o preço do m2 (CUB/m2) em cada estado.
O CUB/m2 é pesquisado para projetos de casas de baixo, médio e alto padrão, além de imóveis comerciais e galpões industriais. É divulgado estadualmente por cada Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil). Teve origem na Lei Federal nº 4.591 de 16 de dezembro de 1964. Diz, no artigo 54 que “os sindicatos estaduais da indústria da construção civil ficam obrigados a divulgar mensalmente, até o dia 5 de cada mês, os custos unitários de construção a serem adotados nas respectivas regiões jurisdicionais…”. Cabe lembrar que no cálculo do CUB não entram: fundações, submuramentos, rebaixamento de lençol freático; elevador(es); equipamentos e instalações (fogões, aquecedores, ar-condicionado, calefação, ventilação etc); playground (quando não classificado como área construída); urbanização, recreação (piscinas, campos de esporte), ajardinamento, instalação e regulamentação do condomínio; impostos, taxas e emolumentos cartoriais, projetos: projetos arquitetônicos, projeto estrutural, projeto de instalação, projetos especiais; remuneração do construtor; remuneração do incorporador.
A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) compila estes dados e faz comparações nacionais e regionais. No Espírito Santo, por exemplo, o m2 de uma casa de padrão normal (R-1) custaria, em média, em maio de 2009, R$896. No Paraná o mesmo m2 sairia a R$965.
Um exemplo de aplicação dos CUB: Quando o imóvel é financiado na planta nós geralmente pagamos, durante o período de construção, o CUB mais um percentual de juros. Isso garante ao construtor que caso os preços da construção subam ele consiga continuar a obra sem levar prejuízo. Por isso nos cobram essa variação, acréscimo, no custo da construção (CUB). Assim que as chaves são entregues, o indexador das prestações passa a ser o IGP-M, que é o índice de referência para os contratos no mercado.
> IGP-M (Índice Geral de Preços de Mercado) – é uma média, ponderada, calculada pela FGV, dos outros índices do mercado, IPA, IPC (no Rio e S.P.) e INCC. É um dos índices mais importantes na economia, pois serve de referência para reajuste de contratos na economia, entre empresas, empresas e pessoas físicas, e empresas e o governo, incluindo telefonia, energia elétrica, contratos de aluguel etc.

O IGP-M mede a variação dos preços entre o dia 20 de um mês e o dia 21 do mês seguinte. Quando o IGP mede a variação entre os dias 1º e 30º é chamado de IGP-DI. Se a coleta for feita entre os dias 10 de um mês e 11 do mês seguinte é denominado IGP-10. São, portanto, todos IGP’s, sendo a diferença apenas no período em que os preços são coletados (ver tabela abaixo).
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Como o IGP-M não é uma lista de preços, mas uma média ponderada de 3 outras listas, temos 3 listas aferidas entre os dias 21 e 20, o IPA-M, IPC-M e INCC-M (60% do IPA-M+ 40% do IPC-M + 10% do INCC-M). O IGP-10 é, da mesma forma, composto pelo IPA-10, IPC-10 e INCC-10, etc.
O importante no índice é a sua metodologia. Por ter forte peso do IPA sofre muita influência do dólar. Vemos na tabela abaixo, especificamente no ano de 2002, que na época da posse do Lula, e o dólar perto de R$4,00, o IGP-M foi de 25%.

Dica
Quando for, e se puder, negociar um índice para reajustar seu aluguel, comissão de formatura etc, opte pelo IPC-A (ou outro IPC). Ele tende a subir menos porque tem um controle mais incisivo do governo. O IGP-M, nos momentos de crise e alta no dólar, como é muito carregado de IPA, tende a subir de forma agressiva, puxando o reajuste aluguéis e demais contratos, como vemos na tabela acima – a título de comparação, enquanto o IGP-M bateu em 25,31% em 2002, o IPC-A foi de “apenas” 12,53% no mesmo ano.
Já tive o desprazer de negociar o aluguel de um imóvel com uma corretora cujo contrato continha dois índices para o reajuste. Não sei até que ponto isso é ilegal; imoral, com certeza. Utilizavam o IPC-A e o IGP-M, com a seguinte observação: “Utilizaremos o IGP-M para o reajuste do aluguel. Caso este fique negativo valerá o IPC-A”. Ou seja, o IGP-M é o índice oficial para contratos. Porém, após a posse do Lula (2002) o dólar caia insistentemente, e isso o puxou pra baixo o IPA e, por consequência, o IGP-M, que ficou negativo ao longo de vários meses, apesar de positivo no fechamento anual (1,21% em 2005 e 3,83% em 2006, por exemplo). Dessa forma, dependendo do mês de negociação (data base), a inflação nos 12 meses acumulados até lá poderia ficar negativa, o que levaria a uma queda no valor do aluguel. Mas, para não terem prejuízo, os locadores, e as corretoras de imóveis, colocaram o IPC-A como um segundo índice na cláusula do contrato, já que este sempre tem um pouco de inflação.
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QUADRO RESUMO DOS ÍNDICES MAIS RELEVANTES |
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| Instituto | Índice |
Cálculo |
Faixa de renda | Coleta de dados |
| IBGE | IPCA-15 |
Lista de preços |
1 a 40 salários | 16 de um mês a 15 do outro |
| IPC-A | 1 a 40 salários | Dia 1 a 30 do mês | ||
| INPC | 1 a 6 salários | Dia 1 a 30 do mês | ||
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| FGV | IGP-10 |
60% do IPA, 30% do IPC e 10% do INCC |
11 de um mês a 10 do outro | |
| IGP-DI | Dia 1 a 30 do mês | |||
| IGP-M | 21 de um mês a 20 do outro | |||
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| IPA |
Lista de preços |
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| IPC-3i |
Lista de preços |
1 a 30 salários | Dia 1 a 30 do mês | |
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| Fipe | IPC-Fipe |
Lista de preços |
1 a 20 salários | Dia 1 a 30 do mês |