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Alguns alunos me perguntam por que nossa moeda valia tão pouco frente ao dólar em alguns momentos da história recente. Por exemplo, por que 1 dólar era trocado por 2.000 cruzados ou mais?

O raciocínio para entender isso não é tão complicado. Imaginemos um país com inflação elevada, exatamente o nosso caso até 1994. Agora pensem em um exportador que tenha o preço do kg de frango a R$2,00. Um comprador que venha dos EUA, por exemplo, ao trazer seu dólar, supondo a cotação no dia a US$1/R$2,00, compraria exatamente 1kg de frango após converter sua moeda. O exportador estaria satisfeito com a venda e o importador com sua compra.

Mas em um país com alta inflação, e exageremos em 100% ao mês, terá o preço do frango elevado para R$4,00 por kg. O importador americano vem no mês seguinte com o mesmo dólar, troca por R$2,00 e tenta comprar o kg de frango. No entanto, ele compra só a metade, já que o kg subiu para R$4,00. Isso prejudica muito o exportador e, como vimos, desaquece o PIB. Os economistas chamam isso de atraso cambial, ou defasagem cambial. Ou seja, o câmbio não acompanhou a evolução da inflação.

O que o governo poderia fazer para amenizar o problema? Desvalorizar o câmbio; os mecanismos para que isso seja feito já vimos na lição nº18. Se levasse a cotação para US$1/R$4,00 o comprador americano agora poderia trocar seu dólar por 4 reais e comprar o 1kg de frango. Ambos saem satisfeitos novamente.

Todavia, no mês seguinte, com inflação de 100% novamente, o frango custaria R$8,00. De novo o governo desvaloriza nossa moeda para garantir o poder de compra do importador e as vendas do exportador. E assim vamos, ao longo de anos temos US$1/R$2.000.

Esse mecanismo, apesar de favorecer o exportador, complica ainda mais a inflação. Já vimos que toda desvalorização cambial favorece as exportações e o PIB mas prejudica as importações e a inflação. Assim, toda vez que o governo desvaloriza o câmbio ele prejudica os importadores e joga a inflação pra cima, isto é, encarece o preço do frango. É um círculo vicioso, ele desvaloriza o câmbio para favorecer o exportador, mas acaba elevando a inflação e, com isso, também o preço do produto do exportador. Aí precisa novamente desvalorizar o real …

Esse seria mais um dos efeitos ruins do câmbio fixo, os outros já trabalhamos ao falarmos do Plano Real. Ou seja, se o câmbio é fixo, mas a inflação não, como sabemos, por menor que ela seja haverá sempre um encarecimento no preço do frango, e de todos os outros produtos. Assim o câmbio fixo que já prejudica as exportações por ter sido valorizado, pois seu objetivo básico é favorecer os importadores e a inflação, acaba por piorar a situação para os exportadores, pois o mínimo de inflação que resta, acumulada ao longo dos anos, faz com que seu produto fique caro para os compradores de fora. E esse foi um outro problema enfrentado pelos exportadores ao longo do Plano Real, além da valorização e fixação em US$1/R$1 ainda havia inflação e com isso defasagem cambial.

No câmbio flutuante esses problemas se resolvem automaticamente com desvalorizações cambiais por conta do próprio mercado. O que podemos concluir então, é que a tendência do câmbio é sempre desvalorizar em função das elevações na inflação. Esse ajuste automático aconteceria da seguinte forma: se o preço dos produtos exportados sobe aqui (inflação), os compradores não trazem dólares; a falta de dólares acaba forçando automaticamente a desvalorização cambial no mercado de câmbio – isso se ele for flutuante, porque se for fixo já vimos que os exportadores são prejudicados. Essa desvalorização favorece novamente os exportadores que voltam a vender – observem que não trabalho aqui com a idéia de que a falta de dólares das exportações será compensada no mercado de câmbio pela entrada de dólares de investimentos, turismo etc. Neste caso o exportador fica efetivamente prejudicado.

Mas, supondo que a falta de exportações desvalorize efetivamente o câmbio, concluímos que as elevações na inflação forçam a desvalorização cambial como um ajuste automática pela queda nas exportações e falta de dólares no mercado de câmbio. 

Teríamos no longo prazo a situação do gráfico abaixo. Quanto mais acentuada a inflação maior a desvalorização cambial, e vice versa. As oscilações de curto prazo ocorrem em função das maiores ou menores entradas de dólares no mercado de câmbio em função de investimentos, pequenas crises etc, sendo neste caso controlado pelo Banco Central. Em períodos de baixa inflação o câmbio continua sua tendência de desvalorização, só que mais suave. Se isso não acontecer os exportadores, e o PIB, são prejudicados. Se esse ajuste automático, desvalorização cambial, não vier, cabe ao governo fazê-lo. Óbvio que essa desvalorização estimulada pelo governo tenderá a acompanhar a inflação quanto mais importante for a exportação pra economia do país.

 

Gráfico 3

No fim de semana do dia 30 de outubro de 2009 me dei conta de como somos explorados em nossa fragilidade emocional, feitos literalmente de bobos. Na preocupação em resolvermos um problema de saúde, no fundo medo da morte mesmo, olhamos para o médico como um salvador, um ser superior, e não como um indivíduo mundano que, além de cometer erros como nós, também está ganhando pra fazer o seu trabalho. Muitos médicos, mas não todos, apropriam-se disso e “fazem a festa”.

Talvez entendam isso a partir da minha fatídica experiência com uma cirurgia, que não foi realizada, na última semana de outubro no Vitória Apart Hospital. A narrativa está abaixo, na forma de uma carta enviada à direção do referido hospital.

Ou nos convencemos que médicos, advogados, engenheiros, economistas etc, não são seres superiores e ganham para fazerem seu trabalho, como nós, ou seremos sempre tratados como merecemos, tolos. Aos que tiverem paciência segue o relato:

 

À direção do Vitória Apart Hospital

 Vitória 02 de novembro de 2009

Caros senhores, não sei se tipifico este email (carta) enquanto uma reclamação, denúncia, crítica, sugestão ou apenas um desabafo. A bem da verdade acho que ela não mudará nada, e neste caso vai somente como um desabafo mesmo. Peço desculpas pelo tamanho, mas penso que a riqueza de detalhes me exime do peso na consciência de um erro injusto de juízo de valor. Relato a seguir o acontecido no Vitória Apart Hospital nos dias 29 e 30 de outubro.

Internei-me no dia 29 por volta de meio dia com o objetivo de fazer uma cirurgia para corrigir um desvio de septo e extração das amígdalas. Não havia um horário pré-determinado, mas como me foi informado ocorreria por volta das 2 da tarde. Estando em jejum desde as 6:30 – e a última alimentação às 7 da manhã havia sido de 3 biscoitos e um copo de suco, como me fora demandado – assim fiquei até as 3 da tarde (8:30 minutos de jejum) quando o cirurgião responsável surgiu. Confesso que a visão do “doutor” me trouxe forte alento uma vez que, finalmente, eu me livraria da angústia da sala pré operatória e das malditas amígdalas. Tamanha foi a minha surpresa quando o referido “doutor”  disse-me que havia um problema – e não citarei o seu nome aqui para não expô-lo publicamente (mas tenho nome e CRM caso interesse aos senhores). Segundo ele, uma cirurgia anterior havia atrasado um pouco – já havia me informado antes e sabia que isso era normal. Surpreso fiquei com o fato de ele hesitar em fazer a minha pelo fato de o seu filho ter um evento do qual ele também gostaria de participar, como pai. Isso aconteceria às 4 da tarde. Como minha cirurgia era às 3 não daria tempo de ele acompanhar o filho. Perguntou-me se haveria problema em adiarmos para o dia seguinte; deu-me ainda a opção de fazê-la naquele mesmo dia, no entanto ele não compareceria ao evento do filho – sugeriu inclusive que crianças precisam da presença do pai e podem ficar traumatizadas caso isso não aconteça. Não há como discordar da sua afirmação, não sou pai, mas tenho um sobrinho, provavelmente coetâneo, e acompanhei o seu crescimento. Sei como é imprescindível a presença paterna.

A sua postura enquanto pai foi impecável. No entanto muito me assustou a sua conduta enquanto médico. Naquele momento o paciente à sua frente, após mais de 8hs de jejum e tenso com a cirurgia – não preciso lembrar que elas são corriqueiras para os senhores, mas não pra nós – parecia não lhe interessar. Era mais importante o seu compromisso com o filho. Compromisso este que coincidiria com o horário da cirurgia. Marcou-a por que então sabendo que as anteriores poderiam atrasar?

No momento nem hesitei muito e marcamos a cirurgia para o dia seguinte. A meu contragosto mas, apesar de óbvio após 9hs de jejum, preferi não explicitá-lo, afinal naquele instante não estava mais conversando com um médico, mas com um pai. Voltei pra casa comi algo e entrei de novo em jejum as 11 da noite para ser internado por volta das 7:30 da manhã do dia seguinte. A cirurgia aconteceria às 9, como combinado. Internei-me no horário acordado. Por volta de 10hs pedi informações sobre o cirurgião já que chovia muito e ele poderia estar preso no trânsito – já passava 1 hora do horário da cirurgia. Ninguém sabia me informar, mas me disseram que a sua instrumentadora encontrava-se no hospital. Pedi que fizessem contato com a mesma. Ela não compareceu – também não sei se foi feito contato, o que não exime ninguém da culpa pela falta de comunicação interna. Minha alternativa foi dormir mais um pouco e, novamente, aguardar. Acordei e resolvi informar-me da hora. Era MEIO DIA. Após 13 horas de jejum, e quase 5 horas sentado esperando alguma notícia, já que fui internado às 7:30, simplesmente levantei-me e pedi minhas roupas. Havia chegado ao limite. Não só ao meu limite físico, mas também de tolerância àquela falta de respeito.

A sensação era de que estavam me fazendo um favor, nesse caso eu seria um pedinte, e pedinte não tem direitos. Mas não preciso lembrar que a partir do momento em que passei o meu cartão da Unimed e assinei os termos da internação minha relação com o Apart Hospital, com a Otovix e com o médico passou a ser de cliente – e a de vocês fornecedores. Portanto, estava pagando por isso. E, neste caso, o mínimo que deveria ter recebido é respeito.

Não demandei atenção em momento algum até porque não estava lá por carência afetiva, neste caso teria marcado uma consulta com um psicólogo; meu problema era a dificuldade na respiração. Logo, queria apenas que fosse respeitada minha condição de cliente e que, enquanto tal, se minha “entrega” fosse atrasar eu gostaria de ser comunicado – e esse email não existiria se o acordo comercial do dia seguinte tivesse sido cumprido. Não foi, e não me parece que havia alguém se importando com isso. Naquele instante arrependi-me de no dia anterior ter ajudado o doutor a passar um agradável fim de tarde com o seu filho. Em momento algum ele se preocupou se eu tinha também um filho e que poderia ter perdido aqueles dois dias com ele.

 Questionei-me se a atitude do médico tinha sido correta, se abrir mão da minha cirurgia para ir ver o filho era ético, moral ou legal. Particularmente não achei ético, mas se até Aristóteles, Platão, Kant, Maquiavel etc tiveram dificuldade em definir ética eu não conseguira em parcos minutos. Talvez haja algo específico dentro da norma de conduta no CRM, mas não perdi tempo procurando, mesmo porque se o tom é de desabafo, não de denúncia, fazê-lo pra quê?! Ative-me a partir daí nas frases de um grego que os senhores conhecem bem. E, apesar das diferenças na tradução, bem como das alterações e adaptações sofridas ao longo do tempo, uma delas chamou-me a atenção (texto de 1994, da Assembléia Geral da Associação Médica Mundial):

 

“No momento de me tornar um profissional médico:
        (…) A saúde do meu paciente será minha primeira preocupação (…)
        Faço essas promessas solenemente, livremente e sob a minha honra.”

 

A meu ver, ao menos um pedaço do juramento, exatamente o que toca aos pacientes, não foi cumprido. Melhorar a saúde do paciente humanizando o atendimento não pode se restringir a colorir paredes, espalhar palhaços pelos corredores com suas bolinhas vermelhas no nariz ou colocar jardins ornamentando o hospital. Se a atitude, de respeito, não partir dos médicos vira tudo engodo, que só serve pra criança. Também me causa estranheza o fato de não haver uma ouvidoria numa empresa de tamanho porte.

 Todavia, encontrei um canal interessante no próprio site, com: histórias de sucesso e agradeça ao Doutor, este último com o seguinte texto:

 

“Médicos altamente qualificados, em todas as especialidades da medicina, atendendo aos pacientes com dedicação, competência e solidariedade. Este é o perfil da equipe médica do Vitória Apart Hospital, que faz do atendimento humanizado um diferencial do nosso hospital. Pois então, compartilhe conosco a sua experiência neste espaço: Agradeça ao doutor!”

 

Chamaram-me atenção as palavras dedicação e solidariedade, por isso as destaquei.

Esse meu desagrado já estava acontecendo há tempos com o Apart. Como estamos sempre envolvidos com nossas atividades diárias, nos restando pouco tempo para irmos ao médico, acabamos sempre fazendo vista grossa e deixamos pra lá. Mas alongo-me relatando outra desagradável experiência, ainda com a Otovix, para mostrar que o que aconteceu comigo não foi um mero acaso, um pontinho perdido além da curva normal. Durante as inúmeras consultas iniciais que antecedem qualquer cirurgia não me recordo um dia sequer que não tenha havido atrasos superiores a meia hora. Exaltei-me algumas vezes, pois precisava trabalhar em seguida e o meu exame já estava com quase 1 hora de atraso. Aí vem a indagação: marcar horário para as 5 pra que se só serei atendido por volta das 6?! O que se percebe é um grande número de consultas em um curto intervalo de tempo, resultando em médicos apressados para acabar o mais rápido possível o exame (já imaginaram a sensação de sentar-se à frente de um médico e perceber que ele está, visivelmente, querendo se livrar o mais rápido possível de você porque há um outro paciente inquieto esperando o atendimento??). De qualquer forma, assim faz-se mais dinheiro, à custa do tempo, e da paciência, do “gado” amontoado nas cadeiras ao redor do consultório – e não fui o único a reclamar das vezes que estive aí. É lamentável, e vergonhoso, mas essa é a regra. Ou seja, o tempo do médico – e o dinheiro fruto dele – é importante, o nosso não.

Poderia ainda citar as duas vezes que fui ao setor de Imagem e não consegui fazer minhas tomografias, mas me alongaria demais, afinal isso parece ser regra, e ficaria repetitivo. Para não ser injusto – e não vou elogiar, pois isso não é um favor, volto a repetir, é uma obrigação – relato que o único setor que conseguiu cumprir seus horários foi o da cardiologia. Faço exames de rotina lá há anos e jamais tive atrasos significativos ou falta de atenção médica.

É interessante, sou professor há mais de 12 anos, 10 deles apenas em uma instituição de Vitória. Se consultarem quantas vezes atrasei-me para o meu compromisso acho que se surpreenderão. É bem provável que ouçam um sonoro, e uníssono, NUNCA! Eu sou pago não só para ser um bom profissional, isso não basta. Eu preciso cumprir meu horário, porque sei que haverá pessoas me esperando. Portanto, recebo não só para ser bom no que faço, mas também para ser pontual, e quando não consegui-lo, comunicar o mais rápido possível o motivo do meu atraso. Felizmente nunca precisei.

Apesar de saber que nem todos os médicos se comportam assim é uma pena que não consigamos distingui-los dos demais. Em suma senhores, parece ser praxe esse tipo de conduta médica no setor que citei do hospital de vocês; sei também, por intermédio de amigos diversos que e em outros ocorre a mesma coisa – por vezes, quando dizia que faria minha cirurgia no Apart a resposta que obtive de quase todos os conhecidos foi: “Não vá para o Apart!”. Ou seja, meu dissabor não é, nem de longe, o único.

Das dezenas de conhecidos que fizeram cirurgia similar é raro alguém que não tenha se frustrado com esse comportamento, a meu ver, triste, de boa parte da classe médica, por mais que as cirurgias tenham sido um sucesso. Observem que não questiono capacidade médica em momento algum, até porque não tenho como avaliar uma vez que a cirurgia não foi feita – pelo menos ele me foi bem recomendado. É, então, um problema de conduta. Fica a impressão de que alguns deles se transformaram efetivamente em celebridades. No entanto, eu não sou tiete, nem faço parte de fã clube; sou cliente, e como tal espero não atenção, autógrafos, ou uma conversa amiga e tapinhas nas costas, quero apenas respeito e a execução do serviço que foi contratado.

Acho todo tipo de julgamento difícil, mas apropriei-me da ocasião para fazê-lo, até porque minha relação com vocês era puramente mercantil, isto é, troquei dinheiro por um serviço de saúde, e sinto-me desrespeitado pela conduta do “doutor”, ou melhor, dos doutores da Otovix. Fica assim documentada a minha insatisfação. Ao menos desabafo e me alivio também daqueles dois lamentáveis e frustrantes dias perdidos dentro da internação do Vitória Apart Hospital.

Grato pela atenção, ao menos na carta.

Tarcísio André Giesen,

ex cliente do Vitória Apart Hospital

 

“A vida é breve, a ocasião fugaz, a experiência é vacilante e o julgamento é difícil”  (Hipócrates)

Voltemos ao câmbio fixo para entender um pouco do Plano Real, lançado em 1994. Servirá, apesar de já relativamente longínquo, de estudo de caso para entendermos o câmbio fixo visto em lições anteriores e seus desdobramentos. Não tratarei aqui da elaboração do plano, da troca de moeda do cruzeiro real para o real etc. O que nos interessa é o fato de o Plano ter utilizado como elemento mais importante a política cambial – das intervenções diretas, passando pela indireta (selic) até vender definitivamente a alma ao pedir ajuda ao FMI . Não coincidentemente foi tipificado na época como âncora cambial, isto é, toda a economia estava ancorada (amarrada) no câmbio, mais especificamente, na cotação de U$1/R$1.

A estratégia básica do então presidente FHC (Fernando Henrique Cardoso), que trabalhou o plano ainda como ministro da fazenda no governo Itamar Franco (1992), foi fixar o preço do dólar em 1 real, garantindo que não fosse negociado nem acima nem abaixo disso no mercado de câmbio – na verdade, uma oscilação mínima de alguns centavos era inevitável e admissível. Ou seja, importadores, exportadores, investidores, turistas etc comprariam, ou venderiam, seus dólares a esse preço, ou bem perto dele. A fixação dessa paridade veio com uma valorização (ou sobrevalorizaçã0, como diziam na época)  prévia do câmbio, já que antes disso ele estava em R$1,30 ou R$1,40.

Os efeitos positivos e negativos dessa valorização sobre a economia já vimos:

1º) queda na inflação, pois os produtos e matérias-primas importadas ficam baratos. Isso afeta o IPA e, em seguida, o IPC-A, que ficou baixo nos meses após o plano. A título de comparação, em junho de 1994, 1 mês antes do lançamento do Plano, o IPC-A fechou em 47,43% no mês – considerando todo o ano de 2003, impressionantes 2.477%.

2º) Os exportadores são prejudicados, pois recebem menos reais por cada dólar. Vários setores exportadores na época foram prejudicados, dentre eles o de tecido e calçadista. Isso tende a desacelerar o PIB e reduzir o número de empregos.

Um outro efeito negativo sobre o PIB vem das próprias importações. Isto porque importações excessivas, como aconteceu na época, inundam o mercado de produtos de fora a preços baixos. Recordam-se das inúmeras lojinhas de R$1,99? Pois é, muito bonitinhas e quebravam um galho. Mas o efeito disso não foi só sobre a desaceleração na inflação, foi também devastador sobre a indústria nacional que produzia bens similares (roupas, brinquedos, sapatos, acessórios, bugigangas em geral). Na incapacidade de reduzir custos para competir com estes produtos, em sua maioria vindos da China, não restou outra alternativa senão fecharem as portas. Soma-se a isso a crise enfrentada pelo setor exportador e temos um efeito péssimo sobre o PIB e o nível de empregos.

Mas o governo deixou claro que seu primeiro objetivo era combater a inflação – vocês acham que a queda de 47,43% ao mês para algo próximo de zero nos meses seguintes seria convincente para os eleitores? Só depois pensaria no crescimento no emprego. De fato, quando resolveu pensar nisso, em 1999, já era tarde demais.

Mas o que fazer no mercado de câmbio para garantir esse dólar a R$1,00 e com isso importados baratos e inflação baixa? O que você faria se soubesse que o dólar está baratinho e que, provavelmente, uma hora irá subir de valor? Compraria dólares, claro. E foi o que os bancos, principalmente, fizeram ao longo de anos. Compravam dólares sabendo que uma hora o Plano acabaria e ele fariam um bom dinheiro.

Indo além, se as exportações estão comprometidas nesse cambio fixo não temos entrada de dólares no mercado de câmbio. Se as importações crescem em grande quantidade temos uma grande saída de dólares desse mesmo mercado de câmbio. Se todos compram dólar achando que ele subirá mais à frente e os guardam temos mais uma saída do mercado de câmbio. Resultado? Uma falta constante, e brutal, de dólares nos bancos.

Mas como garantir a paridade nesse caso, e o preço baixo dele aos importadores? Política cambial, muitas intervenções do Bacen (Banco Central) no mercado de câmbio, vendendo, vendendo e vendendo dólares das reservas para evitar que a cotação do dólar subisse e puxasse a inflação. O Plano Real tinha, portanto, data para acabar, e isso aconteceria quando se exaurissem as reservas cambiais. 

A coisa se agravou com a crise no México em 1994, época de lançamento do plano no Brasil. O câmbio fixo também era utilizado pelo governo mexicano e mostrou-se ineficaz e traumático. Eles o abandonaram e avisaram o mundo que o preço seria muito caro. Os investidores, imaginando o que aconteceria com o Brasil, fugiram do país e levaram seus dólares, ou seja, menos dólar no mercado de câmbio e mais reservas perdidas para conter sua alta. Em 1997 a Ásia entra em crise pelo mesmo motivo. Em 1998 a Rússia padece do mesmo mal. Faltavam apenas dois paises a abandonar o câmbio fixo: nós e nossos hermanos Argentinos.

Em função das crises financeiras as reservas tiveram uma redução mais rápida que o previto, e já em 1998 praticamente não as tínhamos mais; isto é, a fonte que alimentava a política cambial do governo, a mais importante, havia secado. Ou seja, não poderíamos mais manter o câmbio fixo, ele precisava flutuar. Mas como fazer isso se no fim do ano haveria eleição e o presidente que lançou o Plano era candidato? Como dar um jeitinho de segurar o câmbio fixo, e a inflação, até lá?

Alguémm “chutou” a taxa selic (intervenção indireta)? Acertou! E foi assim que aconteceu, o governo deu a segunda, mas não a última, cartada para manter o mercado de câmbio com dólares suficientes que evitassem a desvalorização cambial, mesmo que a um preço exageradamente alto, a política monetária. O presidente do Bacen elevou então a taxa selic, e por alguns meses ela chegou a mais de 45% (ao ano), como alternativa, insana, de atrair especuladores (bancos) de todos os cantos do mundo com seus preciosos dólares. Funcionou, ao menos até que a reeleição estivesse garantida, e prefiro nem comentar o efeito desastroso disso sobre a dívida pública interna ao longo dos dois mandatos.

Mas a coisa não parou por aí, capital especulativo não era suficiente para sustentar a falta de dólares no mercado de câmbio. O governo também emitiu em grande quantidade papéis cambiais, aqueles que pagam a diferença do dólar no vencimento. Portanto, não são dólar, mas garantem o valor do dólar lá na frente. Esse dólar lá na frente estaria muito elevado, obviamente, e alguém pagaria a conta. E pagamos! Foi suficiente? Não! Se a conta já estava saindo cara até aqui piorou ainda mais quando, dada a desvalorização crescente da moeda, emitimos o primeiro pedido de socorro ao FMI, batemos à porta do agiota. Só em 1998 foram US$ 41 bilhões.

A partir daí, em 1999, o governo FHC “não precisaria” mais dos especuladores, menos ainda das reservas. Abandonou o câmbio fixo, afinal não havia o que fazer, e viu o câmbio flutuar – tudo bem que quase sempre pra cima, como era previsível. O governo ainda tentou fazer algumas bandas cambiais em janeiro de 1999 para que ele não desvalorizade de vez. Mas ao liberá-lo a partir de R$1,20, em menos de dois meses ele chegou a R$2,10 – o IPC-A no fim do ano ficou próximo de 9%; em 2002, com o dólar “beliscando” os R$4,0 o IPC-A fechou em 12,5%.

Em 21 de janeiro de 2009, ao fazer um balanço do Plano Real, um texto da Folha Online dizia: “Dez anos atrás, o Brasil parou para tentar desarmar uma “bomba-relógio” montada pouco após o Plano Real. Era a política de bandas cambiais, que mantinha o dólar quase fixo e havia sido um dos pilares do sucesso do combate à inflação, mas que, em janeiro de 1999, parecia ter os dias contados por conta do desequilíbrio nas contas externas e da sangria das reservas internacionais”.

Em 2001 o atentado nos EUA e a bancarrota Argentina forçaram o governo novamente a atrair especuladores e pedir mais ajuda ao FMI, mais US$ 15 bilhões. Porém, a desvalorização atingiu níveis críticos na virada do ano de 2002/2003 quando um novo presidente, de esquerda, estava prestes a assumir a presidência; o dólar estava próximo de R$4,0 – mais US$ 30 bilhões foram pegos com o FMI para tentar acalmar o mercado de câmbio.

Em linguagem mais popular, o governo manteve por longos anos um Pit Bull acorrentado. Ao criar coragem e libertá-lo das correntes as consequências seriam previsiveis, porém, inevitáveis. Resumo da ópera: com reservas cambiais, câmbio valorizado e inflação baixa FHC havia levado duas eleições. Com a ausência delas, câmbio desvalorizado e inflação em alta, não emplacou seu sucessor (Serra), entregando a presidência ao, até então, ‘bicho papão’ da esquerda. Dali pra frente os maus agouros não se concretizaram, o dólar voltou a cair, o governo comprou muitos dólares para minimizar o efeito negativo sobre o exportadores, e o resto todo mundo já sabe, reservas cambiais recordes.

Gostemos ou não do governo Lula não dá pra negrar que a política cambial foi bem gerenciada.

Se você é como eu, não nasceu em berço de ouro, nem de prata, quiçá um de bronze, a vida precisa de alguns números, continhas. Há muita badalação sobre como enriquecer, como fazer fortuna na bolsa, o primeiro milhão, etc. São muitos livros e reportagens tratando do tema. E também muito equívoco sobre o assunto. A coisa não é tão milagrosa quanto parece, apesar de ser possível com um pouco de adestramento financeiro.

O erro mais comum que se incorre é não saber trabalhar com a inflação ao longo do tempo. Assim não percebemos que virar um milionário pode não ser algo tão complicado, mas também não muito simples. A conta que geralmente fazem do primeiro milhão não considera os efeitos da inflação (elevação nos preços) ao longo dos anos. Ou seja, 1 milhão hoje me permite comprar uma cobertura em um bairro nobre, por exemplo. Todavia, se eu juntar esse milhão ao longo de 30 anos, quando chegar lá a cobertura poderá estar custando 3 milhões. Isto porque a inflação fez os preços de tudo, inclusive imóveis, subir. Ou seja, ter 1 milhão daqui a 30 anos pode não valer muita coisa, já que o preço de tudo se elevou. O esforço para ter os 3 milhões passa a ser, então, mais árduo, uma vez que preciso cumular poupança pensando na inflação que corroi o meu dinheiro ao longo do tempo.

Montei uma planilha simples para que possamos fazer uma simulação. Entretanto, antes da simulação quero fazer algumas considerações sobre investimentos. Tomem muito cuidado com os gurus financeiros. Eles aparecem nos estados ministrando cursos e se gabando de terem feito fortuna. Vocês já viram um garimpeiro achar um veio de ouro e sair divulgando mundo afora pra dividir seus ganhos? Ninguém dá o mapa da mina. Nunca vi o Soros ou o Buffet ministrando cursos de como fazer fortuna. Segundo, se o sujeito fez fortuna com a bolsa ou investindo, está fazendo o que em pleno sábado e domingo dando curso pra ganhar uns trocados? Só trabalha fim de semana quem precisa de dinheiro, ou animador de auditório, que por sinal, faz fortuna com isso.

Também não confie nas dicas dos gerentes de banco. Eles costumam falar sobre o que não entendem e no fundo são apenas funcionários com metas a cumprir. Por isso nos empurram pra bolsa, fundo DI, etc etc, nem sempre o melhor negócio pra você. O risco é seu, o lucro dele. Por quê? Por que comprando ou vendendo qualquer ativo, esteja ele em baixa ou em alta, ele te cobrará uma corretagem. E se a dica do gerente não for boa, sem problema! Como você, e nem ele, entendem do mercado, é só colocar a culpa na crise, dizer que o momento não está bom etc. Mas a corretagem já estará no bolso do chefe dele.

Feitas essas duas considerações lembremos ainda que todo investimento depende de 4 variáveis: (1) o prazo no qual está disposto a deixar o dinheiro “parado” e rendendo. Quanto maior o prazo maior o efeito do juro cumulativo, assim, maior a poupança lá na frente; (2) a disponibilidade mensal para aplicação, isto  é, quanto você está disposto, e quanto pode, dispor da renda mensal para fazer aplicações; (3) a inflação no período, pois dinheiro parado é corroído pela inflação; (4) o juro da aplicação, ou seja, o quanto você terá de remuneração pela aplicação que deve, obrigatoriamente, ser superior ao percentual da inflação no mesmo período, do contrário não terá ganhos reais, perderá dinheiro. Este 4º tópico é extremamente importante, pois o rendimento que conseguirá, acima da inflação, dependerá do seu perfil – se você está disposto a correr maiores riscos poderá ter melhores rendimentos melhorando sua poupança futura, mas também grandes prejuízos, comprometendo sua renda na aposentadoria. Se for um investidor moderado ganhará menos, mas se estressará menos.

 

Colocadas estas considerações, vamos brincar de Tio Patinhas!

 

A partir da planilha (clique aqui) imaginemos que um jovem poupe, desde os seus 22 anos, R$100,00 por mês e os coloque na poupança. Ela rende hoje 0,7% ao mês, aproximadamente. Quanto ele teria ao final dos seus 60 anos? Exatos R$329 mil reais. Correto? Não! Esse é o cálculo comum que se faz e está equivocado. Como esse dinheiro ficou parado por quase 40 anos a inflação o consumiu em parte. Considerando uma inflação mensal de aproximadamente 0,3% ao mês, e se a abatermos daquele ganho (nominal) de 0,7%, temos um ganho real mensal (descontada a inflação) de apenas 0,4%. Este seria o patrimônio real acumulado (sem inflação) que aparece na planilha. Observem como ele é nitidamente inferior. Saímos de R$329 mil para R$129 mil.

De posse desse dinheiro acumulado ao longo da vida o poupador poderia fazer resgates mensais, descontando também a inflação, de R$517. Retirando esse valor eu garanto que o que está aplicado não seja consumido pela inflação. Ou seja, primeiro deixo que o o valor total (R$329 mil) seja reajustado pela inflação (0,3%) e saco o que der acima disso, os R$517.

Os valores utilizados aqui são da caderneta de poupança, que é um juro garantido pelo governo. Logo, quando dizem que a poupança paga 6% ao ano é quase uma garantia de que ela te restitui o valor que foi depositado corrigido pela inflação (0,3%) mais um adicional acima dessa inflação (0,4%), que é o ganho real. Não é sempre assim porque a inflação oscila sempre, e se for muito alta o ganho real da poupança fica muito pequeno. De qualquer forma o exemplo serve como simulação do comportamento do dinheiro ao longo do tempo - se for um pouco curioso(a) coloque o dinheiro gasto mensalmente com as cervejas e noitadas e veja quanto ele daria ao longo de 30 ou 40 anos com o juro da poupança.

Façamos uma outra simulação para ver como o juro sobre juro pode fazer milagres.

Imaginemos agora os mesmos R$150,00 mensais desde os 22 anos, mas com um rendimento, por exemplo, aplicando em ações, de 1,3% ao mês. Descontando a inflação mensal temos um ganho real de 1,0%. Pra quanto foi o patrimônio real acumulado (sem inflação)? Impressionantes R$1,3 milhões. Isso mesmo, 1 milhão e trezentos mil reais. O que daria uma retirada mensal de quase 14 mil reais. Óbvio que um rendimento de 1,2% não é coisa fácil de conseguir, e correr atrás dele passa a ser imprescindível. Ora em CDB’s, outras em fundos DI, poupança, até ações e outros ativos mais voláteis (alguns deles já comentei nas lições de economia, principalmente naquelas sobre política monetária).

Concluindo, quer ser um milionário? Basta lançar valores na planilha e perceber que se começar aos 25 anos depositando R$400 (e isso não é impossível) na poupança terá, com 60, 1 milhão. Será, todavia, um milionário aparente, pois não tiramos daí o efeito da inflação. Com esse milhão aos 60 anos comprará apenas o equivalente a R$434 mil reais, que é o acumulado real. Ser milionário é, portanto, um pouquinho mais difícil do que mostram as revistas e jornais. De qualquer forma, você não precisa chegar a 1 milhão pra ter uma velhice feliz. No caso anterior, mesmo tendo R$434 mil você teria um rendimento mensal de R$1.740. Se você vive bem com isso, ótimo!

Então, brinque com a planilha e divirta-se Tio Patinhas!

itarana 00Após dias acossado pelo velho veneziano tirei o domingo de folga. Libertei-me hoje pra tentar descrever a sensação de voar, pra mim o ápice da liberdade. Minha dificuldade nesta descrição vem do fato de as emoções serem algo essencialmente subjetivo, e por isso não devam ser descritas, mas sentidas. Mas os que já viajaram de avião e presenciaram aquela grande máquina entrar nas nuvens devem ter sentido algo parecido. Agora imaginem a mesma coisa, entrar numa nuvem, sem aquele monte de lata em volta, e sem o barulho das turbinas. O frescor é tentador, amiúde gélido; a visão, nenhuma, e pra quê, já que em breve o mundo se descortinará lá embaixo, e o céu novamente se tornará azul?; o barulho, quase nulo, só do vendo assoviando ao passar pelo corpo. Ainda assim é indescritível em palavras, e suponho que, apesar de não ser nem um pouco religioso, se o céu realmente existir, deva ser muito parecido com isso.

Essa descrição talvez responda a pergunta que muitos me fazem: Por que você voa? Qual a sensação? Ontem, voltando de mais um dos voos, me dei conta de que não voo só por querer estar próximo, ou dentro, das nuvens com toda aquela visão privilegiada, mas também por outro motivo: memórias. Cada voo vira um pequeno filme, e explico o porquê.

No voo-livre aprende-se a ver tudo como numa grande angular. Em função da altitude, perdem-se os detalhes; ou melhor, percebem-se outros: os rios passam a ser linhas, riscos, cortando o relevo; montanhas são reconhecidas apenas pelas sombras em volta; casas, carros e bois viram pequenos pontos incolores … Na medida em que descemos a grande angular se torna uma poderosa objetiva, a buscar detalhes que aparecem aos poucos. Não sei se os sentidos ficam mais aguçados com uma ou outra lente, são mundos diferentes. De qualquer forma, naquele domingo percebi que o voo também me fazia reparar os detalhes do mundo cá embaixo.

Notei isso após a decolagem de uma pequena cidade chamada Roda D’água. Destino? O mesmo de sempre: sem rumo; simplesmente voamos. No meio do caminho, pra lugar algum, surge um “trabalho árduo”: escalar o Moxuara. A cada curva que faziamos, dentro do ar fresco e instável que subia na sua encosta, Vitória se mostrava, aos poucos. E lá de cima, dos seus 800 metros, aquela imensa pedra cinza com o topo verde fica mais mais bonita e imponente, sempre agraciada com nuvens a refrescar o seu cume. A capital, um pouco a frente, agora descortinada e  pequena aos olhos, surgia banhada pelo mar azul e linda com seus prédios multicoloridos, ora aglomerados ora dispersos; lagoas que lá de baixo não se imagina existirem; seus portos repletos de navios ancorados, naquele instante parecendo de brinquedo, e rigorosamente apontados pra sudeste. Até esse momento estavamos em três. A partir daqui cada um seguiu seu próprio rumo, por erro na rota, ou simplesmente por buscar uma saga diferente. Meu passeio passou a ser solitário, e muito silencioso.

Durante o voo, a cada casebre sobre as montanhas que passava gritos isolados, como saudações, rompiam o profundo silêncio. Raramente localizava sua origem, mas os respondia, do mesmo modo, aos berros, pois em êxtase me torno criança – frequentemente fora dele também. Junto com eles também ouvia, nitidamente, os latidos dos pequenos vira-latas que nada tem a fazer no seu ócio diário, e a esses, que do mesmo modo me traziam deleite, não respondia, pois não saberia como. Inevitável o encantamento com o contraste entre o verde dos pastos e árvores abaixo e a imensidão azul, borrada de pinceladas brancas, acima - se a liberdade pudesse ser traduzida em uma cor essa seria a sua.

Chegando sobre uma pequena vila, depois descobri chamar-se Regência, quase duas horas após, pude ouvir gritos, agora muitos. O  jogo num pequeno campo em declive, e isso só se vê lá embaixo, parou; o povo do boteco levantou de suas mesas. Não era comum um estranho naquela região, afinal era uma pequena e pacata cidadezinha de interior. Menos normal ainda se o indivíduo chega por cima, voando. E foi assim que adentrei aquela cidade. Depois de algumas voltas sobre o campo, mapeando com os olhos e registrando na cabeça cada aspecto do relevo e da simples arquitetura, e dos muitos gritos de boas vindas lá debaixo, resolvi pousar, sem fazer barulho, mas já com muito alarde, à beira do campo.

Entre a correria das crianças em minha direção, entusiasticamente encantadas, e os olhares espantados dos adultos com sorrisos contidos, a frase que mais ouvi foi: “você é maluco!”. E como poderia ser tachada uma pessoa que voa senão de maluca? – a primeira vez que vi um voador pensei o mesmo. E logo a notícia se espalhou, diziam até quem um cara que estava voando havia caído na cidade. Fofoca do interior não é diferente daquela da cidade grande, apenas se espalha mais rápido, mesmo sem internet.

O que aconteceu a partir daí? Absolutamente nada, e mergulhar nesse ‘nada’ foi o meu deleite, é o prazer desse esporte. Converso com uma criança aqui, um morador acolá; alguns bêbados que se ausentaram momentaneamente do boteco, cambaleantes, mas com os copos e garrafas ainda na mão, bafo característico e o olhar semicerrado, me perguntando de onde eu havia vindo. Outros tantos, não necessariamente bêbados, se oferecendo pra me levar de volta. O contato com gente tão simples e solícita é esse “nada” que também não consigo descrever. A vida lenta, arrastada, do interior me atrai, apesar de não conseguir, e não querer, beber dela todo dia; afinal, eu fui urbanizado.

Esse é o outro encantamento do voo, sair do conforto e aconchego da minha casa com um único rumo definido: lugar algum. No caminho posso deparar-me com uma cidade ou, como às vezes acontece, não encontrar coisa alguma. Aí são horas de caminhada em estradas desertas esperando que uma carona se pronuncie. Já pousei às 3 da tarde no meio do nada – Sim! O nada tem meio, e nesse dia eu o acertei. Após 3 horas ’batendo perna’ , a esmo, por estradas completamente desertas, muitos calos nos pés, outras tantas de caronas, e mais algumas horas de ônibus etc, consegui reencontrar os amigos. Eram 11 da noite. Chegada exaustiva, mas enlevada.

Apesar de toda tecnologia utilizada para subir às nuvens, o pouso é tão prazeroso quanto a decolagem, pois me remete a toda aquela vida simples, de pés no chão, caminhando muito, e sujo, pela poeira da estrada de terra batida; uma caminhada geralmente solitária, sendo observado por bois curiosos, pássaros em revoada, e comendo frutas que se pega pelo caminho; o odor do mato e do cocô de vaca também são igualmente gratificantes; um riacho escondido deixa sua presença apenas no cheiro da água que sobe pelas encostas e pelo barulho da corredeira que aguça um outro sentido, a audição. Mais à frente, agora mais vaidoso, ele se mostra e permite ser tocado; a água fria aguça o tato, a sede é saciada, e o último sentido agradece. Volta e meia uma senhora surge debruçada na velha janela e um simples “opa!” é trocado; outros puxam mais conversa, prosa de gente simples, sem muitas pretensões ou interesses, apenas pra matar a curiosidade e ocupar o tempo ocioso, pra sorte deles muito maior que o nosso. Em suma, uma deliciosa rotina que fazia parte dos nossos antepassados, acho até que do meu mais que o da maioria. Uma caminhada sem fim, por minúsculas estradas que rasgam a terra, como artérias e veias que cobrem um corpo. Alimentadas ininterruptamente pela circulação de gente e mercadorias, e algumas vezes por um corpo estranho, com uma mochila nas costas. E apesar de não terem fim, é preciso voltar à vida urbana. Um ponto de ônibus passa a ser quase o fim da viagem. E surge também como um ponto de encontro. Ouço uma mãe ao lado berrar com um filho loirinho,  irrequieto, pulando como cabrito de um lado a outro: “Tarcísio, venha cá!”. Até as coincidências nesses momentos são caprichosamente saborosas.

Digo que o ponto é quase o fim da viagem porque pra mim ela não acaba ali. Nesse dia, no início da minha jornada de volta, dentro daquele ônibus, como tantas outras vezes, sentado na primeira cadeira, daquelas que nos deixam de frente para os demais passageiros, com minhas tralhas entre as pernas, cansado e sujo, observava, de rabo de olho, todos me fitando. Eu era um forasteiro, um estranho no ninho. E cada rosto, cada olhar, trazia uma dúvida; ou estariam todos com a mesma dúvida? Degustei cada um daqueles semblantes, pois sabia que jamais os veria de novo. E não era como em um ônibus na cidade grande onde sequer somos notados. Alí todos se conheciam, se cumprimentavam.

Recordo-me do saudosismo dos filmes italianos. Aquela última tomada, o derradeiro minuto, com um close no rosto, que balança ao balanço do ônibus que parte. Os cantos da boca suavemente esticados, denotando um quê de felicidade por saber que aquele pequeno lugar fará, eternamente, parte de suas recordações. Mas também um quê de tristeza pela certeza de que jamais voltaria ali novamente. Assim como nos filmes, deixei pra trás aquela pequena cidade empoeirada de nome Regência, bem como seus simpáticos e solícitos habitantes. Mas não foi a primeira e, felizmente, não seria a última que eu deixaria pra trás. E já não vejo a hora de voltar … de outra pequena cidade.

Horas depois, já no entardecer, um dos amigos me aguardava na praça da cidade (cidade grande) para voltarmos ao nosso mundo. Havia, cinco horas antes, partido em outra direção, mas também bateu perna com o outro amigo até conseguirem voltar à “civilização”, como eu. De volta à estrada, agora asfaltada, e conduzidos por algo movido à gasolina, não a vento, cada qual narrava sua experiência particular, projetava sua pequena película. No meio da conversa perguntei-o se ele pousaria próximo ao carro para que chegasse mais cedo em casa – teríamos chegado às 2 da tarde se o tivéssemos feito. Não o fizemos, fomos tomados pelo instinto, e chegamos às 7 da noite. Ele me olhou e apenas sorriu. De fato, eu não esperava da resposta dele mais do que isso.

De posse da ferramenta chamada reserva cambial, a forma como o governo gerencia o câmbio dá origem a dois regimes cambiais básicos:

  • Câmbio fixo

A paridade da moeda é fixada pelo governo e gerenciada todo dia, por várias vezes, para evitar que saia do preço por ele estabelecido. Esse valor fixo não precisa ser de US$1/R$1 como foi no Brasil e na Argentina. Isso vai depender de cada moeda e das pretensões do governo.

 

 gráfico cambio fixo

 

 

O câmbio fixo tem um problema já de cara que é o fato de todos especularem com o seu encerramento, e a provável desvalorização. Ataques especulativos contra a moeda são constantes, bem como as compras em grandes quantidades, aguardando o que é inevitável, o seu abandono por parte do governo. Por isso a manutenção de um câmbio desse tipo demanda um grande volume de reservas, já que as compras diárias de dólares superam as vendas, precisando o governo interferir e abastecer o mercado de câmbio. Assim que as reservas se exaurem o governo decreta o fim do câmbio fixo e torce para que a moeda local não desvalorize muito. 

É, portanto, um regime cambial perigoso, e nocivo, pois pode trazer efeitos devastadores para a economia e reservas cambiais. Foi assim com o México em 1994, o Brasil em 1999, a Argentina em 2001 etc etc etc.

Uma alternativa menos traumática é o regime de bandas cambiais. Nele o valor de negociação do dólar não é único, como no câmbio fixo, mas oscila dentro de um intervalo geralmente estreito. No caso brasileiro isso aconteceu somente após o fim do Plano real, e por alguns meses. As bandas eram móveis, ou seja, por um período o governo permitia oscilações entre R$1,00 e R$1,10. Depois ampliava esse limite para R$1,0 a R$1,20 ou R$1,10 a R$1,20, como vemos na figura abaixo.  Não deixa de ser uma desvalorização gradativa do câmbio, mas com controle estreito do governo.

 

banda cambial

 

O mecanismo utilizado para manter a cotação dentro destes intervalos é o mesmo, compra e venda de dólares no mercado de câmbio, que não precisam ser diárias, já que há uma certa liberdade para oscilação.

  • Câmbio flutuante

Aqui não há um preço específico para o dólar. O governo monitora as valorizações e desvalorizações excessivas a fim de evitar os efeitos nocivos sobre inflação e PIB. Assim, quando faltam dólares e o câmbio desvaloriza excessivamente surge a inflação (elevações no IPA e em seguida no IPC-A). Para evitar tais excessos ele pode valer-se das reservas cambiais para abastecer o mercado de câmbio e forçar a baixa do dólar. De modo inverso, nas valorizações cambiais, com a grande sobra de dólares, os exportadores, principalmente os pequenos, podem sofrem com queda na receita e margem de lucro. Isso prejudica o PIB (20% vem das exportações), forçando o governo a retirar, comprar, dólares do mercado e guardá-los nas reservas cambiais.

Com a flutuação não é limpa, ou seja, o governo faz intervenções quando julga oportuno, esse câmbio também pode ser chamado de administrado, ou flutuação suja.

 

flutuante

velho venezianoQuando jovem aquela imagem jamais me incomodara. Era um mundo do qual eu não fazia parte. E me vejo aqui agora, fitando aquele ser por longos dois minutos – e não mais de dois minutos são necessários para que o mundo vire do avesso, o meu mundo.

Reparei nos pormenores: a cor parda da pele; a camisa social branca banhada em listras pretas, rota; a calça, penso que de linho, não menos surrada, com bainhas exageradas que comiam a vestimenta e deixavam à mostra as meias sociais desbotadas pelo tempo, envoltas em um sapato preto também já relativamente descolorido. O bigode, rigorosamente aparado, combinava com os cabelos cuidadosamente penteados - também pintados como que numa tentativa, em vão, de negar a sua triste condição. E por duas vezes fui perscrutado pelo seu olhar, mas por algum motivo, naquele átimo, não consegui desviar meus olhos.

Ao sair daquele recinto, enquanto dirigia-me ao carro, fui acometido de uma profunda melancolia. No caminho, olhos no chão, o mundo parecia correr em câmera lenta. Já sentado, olhando o painel por detrás do volante, que me parecia tão distante, percebo como eu e aquele ser estamos, e sempre estivemos, tão próximos.

Vejo-me perfeitamente na posição daquela pobre criatura. Dependendo da mesma ajuda para executar as tarefas mais elementares; recebendo os sorrisos, nem sempre verdadeiros, que me serão dados de forma corriqueira. Pena, essa foi a única coisa que senti enquanto o fitava.

Como poderia encontrar beleza em algo que me consumirá aos poucos tomando minha liberdade de vagar como um desconhecido? Algo que uma hora me furtará o sentido da vida, pois me tolherá o direito de voar, surfar, namorar ou apenas caminhar na praia. Não! Hoje descobri que não há beleza alguma na velhice.

Achei a condição daquele homem, em breve a minha, deprimente, degradante no fim das contas; na maioria das vezes, assim o é. E não me agrada o argumento de que a velhice traz sabedoria – troco a sapiência pela juventude, sem pestanejar. Aquela imagem se duplicava e eu podia me ver também prostrado naquela cadeira, tal qual aquele senhor debilitado, como tantos outros que ali se sentaram antes e outros que ainda manteriam a cadeira aquecida, a esperar a benevolência do Estado, e do seu séquito. Notei que ele já não tinha mais vontade própria. A idade, como um câncer, havia consumido sua liberdade. Aí percebi que, em se tratando do tempo, nada está longe o suficiente que não me pareça tão perto, e a proximidade já não era só física.

Ainda estático dentro do carro, todos os senhores idosos que já vi ou convivi insistiam em brotar na minha mente. Surgiram meus avós paternos, já falecidos. Ele, após um derrame, relativamente vegetativo, caminhando com dificuldade pelas calçadas daquela maravilhosa chácara e murmurando palavras que às vezes eu não compreendia; ela, também após um derrame, e já consumida pelo Alzheimer, me olhando e me chamando pelo nome de um dos primos. Acho que o Alzheimer acabou sendo uma dádiva, pois esquecer de tudo pode ser esquecer da condição degradante em que se encontrava. Perfeito seria padecer como queria Chaplin - já nasceríamos “mortos” e nos livramos logo disso, depois a vida anda pra trás, até nos tornarmos bebês e, depois do útero, terminamos a existência em um ótimo orgasmo.

Também me recordei de uma foto que tirei anos atrás, a que ilustra esse post.  É a de um velho, italiano, num belo terno negro, caminhando em uma das lindas vielas de Veneza. Bengala cuidadosamente polida, traje impecável, chapéu típico, na tentativa de ser notado em meio aos milhares de turistas. Eu o notei, e só hoje paro pra pensar por que o fiz, por que roubei aquela foto – e até o nome que dei a ela à época, hoje enfeitando a parede da minha casa, me vem à memória: “Il Vecchio veneziano”.

Talvez, como uma alma caridosa, sabendo do fim próximo daquela pessoa frágil, eu tenha tentado alongar sua existência, guardando na foto, eternamente, a sua imagem em trajes tão elegantes. Mas só agora percebo que um jovem qualquer não teria atraído meus olhos pelo visor da câmera, minha atenção por aquele scatto (clic) não teria existido se não fosse aquele ser debilitado e senil. Então, noto que na imagem daquele velho centenário o seu rosto não me interessava, pois a tirei enquanto se encontrava de costas. Ele apenas combinava perfeitamente com aquelas velhas paredes milenares, ora em tom pastel, ora num maravilhoso laranja ainda vívido. Isso talvez denote que minha preocupação era só estética. Meu desprezo pela condição daquele senhor fez com que sua face não me despertasse interesse algum, ele apenas compôs a foto, era um figurante, um enfeite. Sim, foi um roubo, pois enquanto caminhava arrastado fiz uma aproximação, furtiva, por trás, para lhe tomar o que eu talvez não tivesse direito.

E, como ironia do destino, me vejo agora próximo da sua mesma condição, imaginando alguém se aproximar, sorrateiro, pelas costas, para roubar a minha imagem sem se interessar pelo meu rosto. Isso me aflige, não parece justo, mas percebo ser o destino natural das coisas. E para agravar minha angústia e inquietação, uma música insiste em martelar na minha cabeça: “o tempo não pára, não pára não …  não pára!”.

Finalmente viro a chave na ignição. Relativamente atordoado pela música, e empurrado pela frase de Cazuza – que dá sentido à vida – além das imagens que brotam em minha cabeça, sinto agora uma vontade absurda de chegar em casa, colocar minha prancha debaixo do braço, caminhar os 3 quarteirões que me separam da praia, sentar-me à frente do mar e beber cada segundo da liberdade que ainda não me foi tomada; embriagar-me com o barulho das ondas; com o sol que escalda a pele; com o movimento dos carros à beira mar; com o caminhar dos desconhecidos que vagam pelo calçadão; de outros tantos que passam à frente chutando o filete de água que se forma, reflete o sol, e some até que venha a próxima onda; com a sensação indescritível de ter os pés sobre a areia, quente por cima mas milagrosamente fresca por baixo; com a umidade que vem do mar e resfria o corpo; com o cheiro inconfundível da maresia; com a visão, serena, de um cachorro magro deitado sobre a areia quente que,  preguiçosamente insolente, se recusa sequer levantar as pálpebras mesmo com o barulho à sua volta; ou simplesmente com o silêncio, quase infinito, entre uma e outra onda, que me deixa ouvir a própria respiração. O mesmo silêncio permite surgir ao fundo, de volta, aquela música, embriagada do mesmo pensamento, ainda a se desculpar com aquele pobre velho veneziano.

 

Podemos agora mapear os efeitos positivos e negativos mais importantes das valorizações e desvalorizações cambiais excessivas. Eles passam, inevitavelmente, pelas importações e exportações.

  

  • Valorizações cambiais (por exemplo, de US$1/R$1,80 para US$1/R$1,30)

 

Efeito negativo – sobre os exportadores: recebem menos reais por cada dólar vendido lá fora. Isso os prejudica, e por tabela, o PIB, já que as exportações representam 20% do PIB, aproximadamente.

Efeito positivo – sobre os importadores: compram o dólar mais barato aqui para remeter para fora do país. Como compram mais barato o preço dos produtos que trazem de fora ou das matérias primas acabam desacelerando, influenciando diretamente o IPA. O efeito seguinte é a desaceleração no IPC-A.

 

Resumo: valorizações cambias favorecem a inflação (importados baratos) mas prejudicam as exportações (menor receita, em reais, para os exportadores)

 

  • Desvalorizações cambiais (por exemplo, de US$1/R$2,0 para US$1/R$2,60)

 

Efeito negativo – sobre os importadores: precisam pagar mais caro pelos produtos importados. Repassarão estes custos adicionais do dólar para os preços. Isso eleva o IPA em um primeiro momento para, em seguida (semanas ou meses), seus efeitos serem sentidos no IPC-A.

Efeito positivo – sobre os exportadores: recebem mais por cada dólar exportado (no caso R$0,60). Como são favorecidos, vendem mais e aquecem a economia (PIB).

 

Resumo: desvalorizações cambiais podem prejudicar a inflação (produtos importados mais caros) me favorecem o PIB (exportações).

  

Outros efeitos

As valorizações cambiais podem ter ainda um outro efeito positivo que é o acúmulo de reservas cambiais. Com a grande sobra de dólares ocasionada pela valorização cambial o governo pode comprar esse excesso de moeda americana e guardar em suas reservas. Lembrando que essas reservas são um importante instrumento de intervenção (direta) no mercado de câmbio. Essas mesmas valorizações favorecem os turistas brasileiros, pois compram dólares mais baratos. Já as desvalorizações prejudicam os turistas brasileiros, mas favorecem os turistas estrangeiros que venham ao Brasil etc.

A conclusão é que não há um câmbio (cotação) de equilíbrio. O que o governo pode fazer é acompanhar valorizações e desvalorizações cambiais identificando os efeitos negativos que possam surgir sobre o PIB e a inflação para aí então utilizar os instrumentos de política cambial: intervenções no mercado de câmbio, com reservas cambiais, ou alterações na taxa selic. Nesse sentido é mais apropriado falar em um intervalo de oscilação do real dentro do qual nenhum efeito negativo mais forte é sentido, e isso vai depender do momento pelo qual passa a economia.

Já concluímos que o câmbio  oscila (valoriza e desvaloriza) em função de sua maior ou menor disponibilidade no mercado de câmbio, sendo esse dominado pelos bancos. Mas por que nos preocupamos com essas oscilações no preço do dólar? Quais efeitos negativos, ou positivos, elas podem trazer pra nós e pra economia? Antes de responder a essas perguntas quero descrever como é a atuação do governo no mercado de câmbio, o único agente do qual não falei.

Considerando então que temos efeitos positivos e negativos das valorizações cambiais (assunto da próxima lição), o que o governo pode fazer para evitar que tais oscilações sejam exageradas? São várias as formas de intervenção no mercado de câmbio, como:

- comprar e vender dólares das reservas

- utilizar a taxa selic, política monetária, como instrumento indireto (via títulos públicos normais ou títulos cambiais)

- taxar a saída de dólares do país caso queira evitar a elevação na cotação. Também pode fazer o inverso, taxar a entrada, como fez com o IOF em outubro de 2009 (2% sobre o capital especulativo: fundos de renda fixa e bolsa de valores) para evitar que mais dólares entrassem no país e provocassem uma queda maior da moeda americana.

- pedir ajuda ao FMI nos momentos mais críticos

 

Todavia, tratarei aqui das duas formas básicas de intervenção – coloquei o FMI no fim do post, que é a forma mais dramática de arrumar dólares para acalmar o mercado de câmbio. Temos portanto, uma fórmula salutar de resolver os problemas no mercado de câmbio (intervenção direta e reservas cambiais), outra nem tanto (via taxa selic) e uma terceira (títulos cambiais e empréstimos ao FMI) que é crítica pois sinaliza crise grave à frente. Vamos a elas.

  • Intervenções diretas no mercado de câmbio

Se o a desvalorização cambial for excessiva sabemos que o dólar está forte porque está faltando no mercado, ou seja, a saída de dólares maior do que a entrada. O governo pode diretamente suprir essa falta no mercado sacando do dinheiro, dólares, que guardou nos períodos anteriores, as chamadas reservas cambiais ou reservas internacionais. Assim, se a falta de dólar forçar muito a desvalorização ele pode vender dólares de suas reservas, a um preço mais baixo, e suprir essa falta no mercado de câmbio. E não interessa a ele se vender dólares mais baratos trará prejuízo, pois o prejuízo maior pode vir com os efeitos da desvalorização sobre a economia.

De modo contrário, se o câmbio valoriza, dólar fraco, é porque há um excesso de dólares no mercado de câmbio (bancos). Para evitar uma valorização excessiva e seus efeitos negativos o governo compra os dólares que estão sobrando e os guarda nas reservas cambiais.

Essa intervenção é chamada de direta pois ele utiliza o dólar diretamente de suas reservas no mercado de câmbio, ou seja, dólar se combate com dólar. Essa intervenção é feita por meio de leilões entre o governo e os bancos, ele oferece os preços de compra e os bancos fazem sua contra proposta. Por isso aparece no mídia, impressa ou não, que o “governo fez hoje um leilão de tantos milhões de dólares”. Significa que no dia ele comprou ou vendeu dólares para conter a valorização ou desvalorização cambial.

Não é à toa que o Lula se gaba tanto das reservas cambiais acima de 210 bilhões de dólares acumuladas a partir do seu segundo mandato. Tem gordura pra queimar, dólares para conter a desvalorização, por um bom tempo caso venha uma crise forte. E sabemos das primeiras lições que dólar tranquilo = inflação controlada = + votos.

  •  Intervenções indiretas no mercado de câmbio (via taxa selic)

Há uma outra possibilidade, não muito incomum, de controlar o preço da moeda americana. Ele pode utilizar a política monetária para controlar valorizações e desvalorizações cambiais. Sabemos que o juro básico da economia (taxa selic), quando muito elevado, atrai o dinheiro dos bancos, ou seja, torna mais interessante que os bancos emprestem seus recursos para o governo, e vice-versa. Mas só os bancos nacionais se interessam por essa regalia? Não! Os bancos estrangeiros também querem, e podem, emprestar dinheiro ao governo brasileiro. Só que, e é isso que o governo almeja, eles tem em seus caixas dólares. Assim, trazem esses dólares para o Brasil, os trocam nos nossos bancos por reais, e emprestam ao governo estes reais resultantes da troca, uma vez que essa operação de empréstimo (via taxa selic) não pode ser feita em dólares. Conclui-se que se os empréstimos dos bancos estrangeiros ao governo brasileiro se elevarem há uma entrada maior de dólares no Brasil, mercado de câmbio, ou seja, valorização cambial.

Se o mercado de câmbio está com falta de dólares, portanto, desvalorização cambial o governo pode elevar a selic, atrair bancos estrangeiros (especuladores) e inundar o mercado com dólar. Assim alivia a pressão sobre a moeda americana e a desvalorização do real.

O inverso também pode acontecer, isto é, em momentos de forte valorização, sobra de dólares, o governo pode reduzir a taxa selic e desestimular os especuladores que aqui estão emprestando para o governo. Como precisam voltar para seus países de origem com sua moeda (dólar) eles pegam o dinheiro que emprestaram ao governo, compram dólares e saem do país. Essa saída de dólares do mercado de câmbio ocasiona uma falta e conseqüentemente uma desvalorização cambial. Está resolvido o problema da sobra de dólares.

Esse mecanismo de controle do dólar é chamado de intervenção indireta pois o governo se apropria da política monetária para resolver um problema no mercado de câmbio. Não é o mais apropriado, mas funciona. O problema é que se errar na dosagem e elevar em demasia a taxa selic nos momentos de forte desvalorização cambial a coisa complica. Já vimos que selic alta resulta em alta dívida interna, e muito divida implica maior necessidade de superávit primário, o que gera, por sua vez, maior concentração de renda.

Para controlar as desvalorizações cambiais sem precisar valer-se da taxa selic, e da dívida dela derivada, passa a ser de suma importância que o governo tenha reservas cambiais suficientes para suprir a falta de dólares no mercado. Se ele não as tiver o preço acaba sendo muito caro. Trataremos em outra lição especificamente do Plano Real para ilustrar o quão caro isso custa.

O quadro abaixo mostra, em resumo, como a tal da taxa selic é uma ferramenta importantíssima pra economia, ao atuar sobre o crédito às familias, e seu respectivo consumo, para controlar a inflação (IPC-A); bem como sobre o mercado de câmbio, desvalorizando o dólar e reduzindo os custos dos importadores – no fim das contas afetando, novamente, o IPC-A.

 

Nova Imagem (11)

 

Apesar de ser óbvio que a taxa selic atrai, ou afugenta, especuladores, ou seja, dólares, seria isso perceptivel, ou seja, haveria um impacto considerável sobre a taxa de câmbio? Vejam o gráfico abaixo e concluam.

 

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  • Vendendo a alma ao capeta

Alguém pode ter se perguntado: e se os especuladores não se interessarem pelas altas taxas de juros, até porque isso é um sinal de que a coisa não vai bem e o governo pode até dar um calote? Há ainda o que fazer? Sim! Há! Vender a alma! E como isso é feito na política cambial? Na ausência das reservas e frente a ineficácia das elevações na taxa básica de juros temos ainda duas formas de alimentar o mercado de câmbio com dólares, nenhuma delas saudável:

a) lançar (vender) títulos cambiais: são papéis, títulos, que o governo vende e que farão parte da dívida pública interna. Mas eles não pagam a taxa selic quando vencem, como no caso acima. Imaginemos que o dólar não para de subir e que as reservas não existam mais, bem como a taxa selic não consegue mais atrair especuladores. Essa pressão sobre o dólar vem dos agentes internos especulando com o câmbio ou com importadores e investidores antecipando suas compras de dólares. O governo, como uma mãe, cega, pode lançar um título garantindo ao comprador de dólar que, se ele comprar o título e não os dólares, o governo paga a ele o valor do dólar no vencimento. Exemplo, um importador precisará comprar dólares mês que vem. Todavia, o dólar está subindo muito e ele prefere antecipar a compra pra não ter que adquirir a moeda americana a um valor mais alto e ver seus custos elevados. Assim como ele todos pensam o mesmo, antecipar a compra, mas se isso acontece o efeito sobre o dólar passa a ser devastador, a desvalorização foge ao controle. O governo vende a ele um título, por exemplo, dizendo que 1 dólar equivale a 1 real. Se, no mês seguinte o dólar estiver a 2 reais o governo dá a esse importador o 1 real de diferença. Assim, o governo cria uma dívida (interna) ao garantir essa desvalorização do dólar – com isso, em tese, alivia a compra por dólares, já que dará garantia em reais de que o comprador não perderá caso o dólar suba. Porém, cada dólar a mais que o governo paga ao importador, valor pago em reais, sai do bolso de alguém – recordam-se do superávit primário ou fiscal?!

b) acionar o agiota: se nem isso funcionar, e verão que no Plano Real nada funcionou, a última cartada é pedir dólares emprestados ao grande agiota internacional, o FMI. A conta a ser paga pode ser amarga, não pelos juros cobrados, mas pela ingerência que ele passa a fazer na economia após contraírmos a dívida. 

 

Reservas cambias e crises econômicas

As reservas são um grande “balaio de gato”, compostas de ouro, dólares, euros, ienes, além de títulos do governo americano, que contam como dólares pela sua alta liquidez. Ou seja, não há um cofrinho efetivamente contento os mais de 230 bilhões de dólares das reservas brasileiras. Eles estão em parte guardados em cofres, mas num maior quinhão espalhados pelo mundo na forma de investimentos, principalmente emprestados ao governo americano. Sim, por incrível que possa parecer, somos hoje grandes credores dos EUA. Ah, emprestamos também para o FMI, aquele mesmo órgão verdugo que nos sovava toda vez nos emprestava dólares na década anterior.

Quando falamos de intervenções diretas (via reservas cambiais) ou indiretas (taxa selic) – e prefiro não pensar na terceira alternativa – tratamos de medidas corretivas de curto prazo caso um crise agrave a saída de dólares do país. No longo prazo o governo pode atrair dólares de forma mais consistente e saudável, estimulando as exportações, os investimentos produtivos do exterior etc. As reservas cambiais servem, portanto, apenas como um colchão para amortecer os impactos de curtos prazo que possam surgir e salvar a economia de seus efeitos negativos. Quanto maior o colchão, maior o amortecedor dos impactos. Ou seja, se o colchão for bom o sono é tranquilo. 

Por se tratar de uma mercadoria como outra qualquer, o preço do dólar também é definido por duas coisas: spread do comerciante e quantidade disponível. Nesse sentido, para cada vendedor de dólar, autorizado, podemos ter preços diferentes. Se formos a duas agências de turismo (ou casa de câmbio) em um mesmo shopping encontraremos preços diferentes, não só pelo porte e estrutura diferente de cada um, mas também pela quantidade de dólares que tenham disponíveis para vender naquele momento.

Mas o que é aquele preço divulgado na TV, nos jornais, sites etc? Aquilo é apenas uma média de preços desses diversos estabelecimentos que operam dólar; geralmente Rio e São Paulo, pela grande quantidade negociada. E esse preço divulgado na TV já nos mostra inclusive o porte dos clientes (compradores e vendedores de dólar), classificando-nos enquanto turistas ou comerciantes. Surge daí o dólar comercial e o dólar turismo, que em linhas gerais significam o seguinte:

 

  • Dólar turismo

Preço para aqueles que, geralmente, o compram para fazer turismo, portanto em pequenas quantidades, valores até US$5.000. Valores acima disso já precisam ser informados à receita, pois não é normal que uma pessoa física gaste mais de 5.000 dólares, em espécie, em uma viagem de 1 mês ao exterior – salvo, claro, os “colegas” da Renascer em Cristo, por sinal, presos, nos EUA, por evasão de divisas com algo em torno de U$56.000. Para os bancos, principalmente, esses valores até 5 mil não são lá muito expressivos. Portanto vale apena cobrar caro para compensar o pouco giro da mercadoria.

 

  • Dólar comercial

Nome dado aos compradores de peso, e estamos falando de milhões de dólares sendo negociados de uma vez por cada cliente. Lógico que nesse caso o banco pode cobrar menos pelo dólar, pois ganha na quantidade vendida. Aqui enquadramos investidores, exportadores, importadores etc. Quem pode mais paga menos, é a regra no mercado de câmbio. Óbvio que esse preço mais baixo só é negociado em casas de câmbio e bancos, pois estes tem autorização para operar (comprar e vender) uma grande quantidade de dólares. Já agências de turismo e rede hoteleira, pelo menor volume de circulação, operam apenas com o dólar turismo, com preços mais elevados para compensar a baixa quantidade disponível e o baixo giro. Notem que isso não impede que os bancos também ofereçam esse produto, dólar turismo, com preços similares, ligeiramente superiores, aos das agências de turismo.

 

  •  Dólar paralelo

Dólar “sem” controle algum do governo. Entra no Brasil de forma ilegal e é vendido da mesma forma, sem autorização do Banco Central. Não há também garantia de que as são notas verdadeiras. Tem um preço parecido com o turismo, mas não atende apenas a turistas, pois muita lavagem de dinheiro acontece aqui. Assim, se compro com um doleiro apenas mil dólares pago o preço do dólar turismo. Mas se estou sonegando impostos, ou trabalho com o narcotráfico, posso trocar 500.000 dólares e pagarei um preço perto do dólar comercial.

Além do narcotráfico (o traficante Juan Carlos Abadia, por exemplo, em sua luxuosa estada no Brasil, trouxe aproximadamente US$10 milhões, de barco. Outros 40 milhões, segundo ele, ainda estavam escondidos no país) e contrabando, outras fontes alimentam o mercado paralelo, como o subfaturamento das exportações.

Exemplificando: um produto é vendido por US$100,00 para um cliente no exterior, mas na fatura consta o valor de US$90,00. Assim, o cliente paga os US$100,00, mas os US$10,00 da diferença entram para o exportador de forma ilegal, sem crivo do Banco Central, e alimentam o paralelo. Jà o importador pode superfaturar suas importações: compra  um produto que vale US$50,00 por US$60,00. A diferença de US$10,00 a mais que pagou fica em uma conta sua no exterior e trazidos ao Brasil posteriormente. E por que um importadores e exportadores fazem isso? Por que o dólar paralelo aqui pode estar mais alto, assim eles traz os US$10,00 de forma ilegal e os vendem aqui no mercado paralelo fazendo um bom dinheiro.

Não é à toa que toda operação da receita e da polícia federal envolvendo sonegação ou desvio de dinheiro público acaba, inevitavelmente, resultando na prisão de um doleiro. Eles são o caminho mais curto para quem precisa esconder o dinheiro fruto das operações ilegais. Como só ele vende dólar em grande quantidade sem a necessidade da identificação do comprador, acaba sendo o mais visado nas operações da receita federal. Também não é incomum nestas operações encontrarem dólares escondidos nas casas dos envolvidos, e em grande quantidade (dentro das paredes, sob o piso etc). Portanto, comprar e vender dólar, em qualquer quantidade é crime, pois é necessária uma autorização do governo. O criminoso, nesse caso, é chamado de doleiro. Óbvio que o governo não está precupado se nós enquanto pessoas físicas compramos ou vendemos pequenas quantidades para amigos etc. Os doleiros que interessam a eles são os que movimentam grandes quantidades.

 

A cotação do dólar na mídida

Olhando do ponto de vista do vendedor de dólar (exportadores, turistas estrangeiros etc) o raciocínio é o mesmo. Exportadores conseguem um preço bom na hora de vender, pois trazem uma grande quantidade; já os turistas estrangeiros, como representam uma pequena parte dos negócios dos bancos, acabam recebendo pouco pelos dólares que trazem pra cá.

A cotação na mídia mostra isso, como vemos no exemplo abaixo.

Dólar comercial:

Compra: R$1,90

Venda:   R$1,92

Spread: R$0,02

Dólar turismo (e paralelo):

Compra: R$1,80

Venda:   R$2,10

Spread: R$0,30

No dólar comercial o preço que compramos é o preço de venda deles (R$1,92). O preço de compra que vemos na televisão é para aqueles que trazem dólares para o Brasil e os vendem aos bancos. Vemos que o ganho é de apenas 2 centavos por cada dólar. Pode parecer pouco, mas para bilhões de dólares girados no mercado cambial por dia o spread (“ganho”) é considerável.

Já no caso do turismo, como não representam o file mignon dos bancos o preço é mais caro. Assim, quem compra dólar paga R$2,10,  não R$1,92. Se por acaso eu precisar vender esses dólares, por não tê-los utilizado, para a mesma pessoa, ele me pagará apenas R$1,80. Por isso comprar dólar pra especular, enquanto pessoa física, pode ser um grande fisco. Compro caro e vendo barato. O dólar teria que subir muito para que eu ganhasse dinheiro com essa operação.

Haveria alguma possibilidade de eu, enquanto pessoa física, portanto comprando uma pequena quantidade de dólar pagasse por ele o preço do comercial, ou próximo disso? Sim! Quando utilizamos o cartão de crédito internacional para pequenas compras (importações) entramos no dólar comercial. A lógica é simples, minha compra de 200 dólares não representa nada para o mercado de câmbio, nem para a operadora, mastercard, por exemplo. Todavia, são milhares de pessoas efetuando compras todos os dias pelo cartão. A operadora, no fim do dia, compra não os meus 200 dólares, mas milhares deles para todos os clientes juntos. Pode assim negociar um preço bom com o vendedor de dólares, o banco. Por isso a fatura do cartão chega com um preço do dólar bem próximo do comercial. Mas cuidado, esse raciocínio só serve se você pagar a fatura de imediato, antes inclusive do vencimento, se preciso, pois caso o dólar suba a fatura fica “salgada”.

Portanto caros leitores, não entrem na agência de turismo do shopping para comprar dólares e reclame que o preço deles está acima do que viu na televisão, ele mandará você comprar em outro lugar.

E onde entra o Banco Central (BACEN) nessa história? Qual a relação dele com o mercado de câmbio? Resposta na lição nº18.

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